sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Manifesto em Defesa da Educação Pública

Nós, professores universitários, consideramos um retrocesso as propostas e os métodos políticos da candidatura Serra. Seu histórico como governante preocupa todos que acreditam que os rumos do sistema educacional e a defesa de princípios democráticos são vitais ao futuro do país.

Sob seu governo, a Universidade de São Paulo foi invadida por policiais armados com metralhadoras, atirando bombas de gás lacrimogêneo. Em seu primeiro ato como governador, assinou decretos que revogavam a relativa autonomia financeira e administrativa das Universidades estaduais paulistas. Os salários dos professores da USP, Unicamp e Unesp vêm sendo sistematicamente achatados, mesmo com os recordes na arrecadação de impostos. Numa inversão da situação vigente nas últimas décadas, eles se encontram hoje em patamares menores que a remuneração dos docentes das Universidades federais. Esse “choque de gestão” é ainda mais drástico no âmbito do ensino fundamental e médio, convergindo para uma política sistemática de sucateamento da rede pública. São Paulo foi o único Estado que não apresentou, desde 2007, crescimento no exame do Ideb, índice que avalia o aprendizado desses dois níveis educacionais.

Os salários da rede pública no Estado mais rico da federação são menores que os de Tocantins, Roraima, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Espírito Santo, Acre, entre outros. Somada aos contratos precários e às condições aviltantes de trabalho, a baixa remuneração tende a expelir desse sistema educacional os professores mais qualificados. Diante das reivindicações por melhores condições de trabalho, Serra costuma afirmar que não passam de manifestação de interesses corporativos e sindicais, de “tró-ló-ló” de grupos políticos que querem desestabilizá-lo. Assim, além de evitar a discussão acerca do conteúdo das reivindicações, desqualifica movimentos organizados da sociedade civil, quando não os recebe com cassetetes.

Serra escolheu como Secretário da Educação Paulo Renato, ministro nos oito anos do governo FHC. Neste período, nenhuma Escola Técnica Federal foi construída e as existentes arruinaram-se. As universidades públicas federais foram sucateadas ao ponto em que faltou dinheiro até mesmo para pagar as contas de luz, como foi o caso na UFRJ. A proibição de novas contratações gerou um déficit de 7.000 professores. Em contrapartida, sua gestão incentivou a proliferação sem critérios de universidades privadas. Já na Secretaria da Educação de São Paulo, Paulo Renato transferiu, via terceirização, para grandes empresas educacionais privadas a organização dos currículos escolares, o fornecimento de material didático e a formação continuada de professores. O Brasil não pode correr o risco de ter seu sistema educacional dirigido por interesses econômicos privados. No comando do governo federal, o PSDB inaugurou o cargo de “engavetador geral da república”. Em São Paulo, nos últimos anos, barrou mais de setenta pedidos de CPIs, abafando casos notórios de corrupção que estão sendo julgados em tribunais internacionais.

Sua campanha promove uma deseducação política ao imitar práticas da extrema direita norte-americana em que uma orquestração de boatos dissemina dogmas religiosos. A celebração bonapartista de sua pessoa, em detrimento das forças políticas, só encontra paralelo na campanha de 1989, de Fernando Collor.


Nota: Manifesto supra-partidário que circula na internet, contra Serra. Retirado de HISTEDBR-Unicamp (Grupo de Estudos e Pesquisa "História, Sociedade e Educação" da Faculdade de Educação da Unicamp)

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Argumento Classe Média

É interessante ressaltar que, para mim, estes números não são o mais importante. Há muito mais; as transformações pelas quais o país passou desde as eleições de 2002 são muito mais agudas do que estes números econométricos podem demonstrar. Ainda assim, acredito que, para muitos, estes dados sejam um argumento bem influente.

Números das gestões LULA e FHC.
GOVERNO LULA - PT (7,8 ANOS)
GOVERNO PSDB - PSDB/PFL (8 ANOS)
1) Número de policiais federais:
Governo Lula: 13 mil
Governo PSDB/PFL: 5 mil
2) Operações da PF contra a corrupção, sonegação de impostos, crime organizado e lavagem de dinheiro:
Governo Lula: 358
Governo PSDB/PFL: 20
3) Prisões efetuadas pelos motivos acima:
Governo Lula: 3.971
Governo PSDB/PFL: 54
4) Criação de empregos:
Governo Lula: 36 milhões (14,6 milhões com carteira assinada)
Governo PSDB/PFL: 700 mil
5) Média anual de empregos gerados:
Governo Lula: 2,14 milhão
Governo PSDB/PFL: 87,5 mil
6) Taxa de desemprego nas regiões metropolitanas:
Governo Lula: 6,3%
Governo PSDB/PFL: 11,7%
7) Desemprego em SP, maior cidade do país:
Governo Lula: 12,9%
Governo PSDB/PFL: 19,0%
8) Exportações (em dólares):
Governo Lula: 258,3 bilhões
Governo PSDB/PFL: 60,4 bilhões
9) Balança comercial (em dólares):
Governo Lula: 265,3 bilhões (positivos)
Governo PSDB/PFL: - 8,4 bilhões (negativos)
10) Transações correntes (em dólares):
Governo Lula: 110,1 bilhões (positivos)
Governo PSDB/PFL: - 186,2 bilhões (negativos)
11) Risco-país:
Governo Lula: 204
Governo PSDB/PFL: 2.400* No governo Lula, o país atingiu o patamar mais baixo da história.
12) Inflação:
Governo Lula: 3,8% (média)
Governo PSDB/PFL: 12,53%
13) Dívida com o FMI (em dólares):
Governo Lula: dívida paga – Hoje o FMI nos deve 18 bilhões
Governo PSDB/PFL: 14,7 bilhões (todo ano emprestávamos uma média de 10 bilhões que desapareciam inexplicavelmente)
14) Dívida com o Clube de Paris (em dólares):
Governo Lula: dívida paga
Governo PSDB/PFL: 5 bilhões
15) Dívida externa:
Governo Lula: 2,41%
Governo PSDB/PFL:12,45%
16) Empréstimo para habitação (em reais):
Governo Lula: 9,5 bilhões
Governo PSDB/PFL: 1,7 bilhões
17) Crescimento industrial:
Governo Lula: 8,77%
Governo PSDB/PFL: 1,94%
18) Produção de bens duráveis:
Governo Lula: 14,8%
Governo PSDB/PFL: 2,4%
19) Aumento na produção de veículos:
Governo Lula: 5,4%
Governo PSDB/PFL: 1,8%
20) Crédito para a agricultura familiar:
Governo Lula: 11,3%
Governo PSDB/PFL: 2,4%
21) Valor do salário mínimo em dólares:
Governo Lula: Quase 300
Governo PSDB/PFL: 55
22) Poder de compra do salário mínimo em relação à cesta básica:
Governo Lula: 3,7 cestas básicas
Governo PSDB/PFL: 1,3 cesta básica
23) Aumento do custo da cesta básica:
Governo Lula: 15,6%
Governo PSDB/PFL: 81,6%
24) Transferência de renda (em reais):
Governo Lula: 12,1 bilhões
Governo PSDB/PFL: 2,3 bilhões
25) Média por família:
Governo Lula: 87 reais
Governo PSDB/PFL: 25 reais
26) Atendidos pelo programa Brasil Sorridente (atendimento odontológico):
Governo Lula: 35,7%
Governo PSDB/PFL: 17,5%* 15 milhões de brasileiros foram pela primeira vez ao dentista.
27) Mortalidade infantil indígena (por 1000 habitantes):
Governo Lula: 18,6
Governo PSDB/PFL: 55,7
28) Pró-jovem - estudo subsidiado:
Governo Lula: 183 mil (18 a 24 anos)
Governo PSDB/PFL: não havia programa, nem registro.
29) Bolsa Família:
Governo Lula: 24,1 milhões de famílias
Governo PSDB/PFL: o programa era o Bolsa Escola com atendimento restrito a um pequeno número de pessoas.
30) Incremento no acesso a água no semi-árido nordestino:
Governo Lula: 1.762 mil pessoas e 152 mil cisternas
Governo PSDB/PFL: zero, não havia programa.
31) Distribuição de leite no semi-árido (sistema pequeno produtor):
Governo Lula: 8,3 milhões de brasileiros
Governo PSDB/PFL: zero, não havia programa.
32) Áreas ambientais preservadas:
Governo Lula: incremento de 25,6 milhões de hectares
Do ano do Descobrimento do Brasil até 2002: 40 milhões de hectares
33) Apoio à agricultura familiar:
Governo Lula: mais de 40 bilhões
Governo PSDB/PFL: Maior repasse 2,5 bilhões
34) Compra de terras para Reforma Agrária:
Governo Lula: 3,7 bilhões (2003 a 2005)
Governo PSDB/PFL: 1,1 bilhão (1999 a 2002)
35) Investimento do BNDES em micro e pequenas empresas:
Governo Lula: 35,99 bilhões
Governo PSDB/PFL: 8,3 bilhões
36) Investimento anual em saúde básica:
Governo Lula: 2,5 bilhões
Governo PSDB/PFL: 155 milhões
37) Equipes do Programa Saúde da Família:
Governo Lula: 27.401
Governo PSDB/PFL: 16.698
38) Índice BOVESPA:
Governo Lula: 35,2 mil pontos
Governo PSDB/PFL: 11,2 mil pontos
39) Dívida externa:
Governo Lula: (260 BILHÕES EM RESERVAS)
Governo PSDB/PFL: 210 bilhões NEGATIVOS
40) Desemprego no país:
Governo Lula: 8,3%
Governo PSDB/PFL: 12,2%
41) Eletrificação Rural:
Governo Lula: 8 milhões de pessoas
Governo PSDB/PFL: 2,7 mil pessoas
42) Livros gratuitos para o Ensino Médio:
Governo Lula: 17 milhões
Governo PSDB/PFL: zero
43) Geração de Energia Elétrica:
Governo Lula: 1.567 empreendimentos em operação, gerando 95.744.495 kW de potência. Está previsto para os próximos anos uma adição de 26.967.987 kW na capacidade de geração do País, proveniente os 65 empreendimentos atualmente em construção e mais 516 outorgadas.
44) Construção de Universidades Federais:
Governo Lula: 27 universidades + 58 novos campi
Governo PSDB/PFL: 6 universidades federais em 8 anos
E PARA TERMINAR NO Nº 45:
45) Falcatruas e roubalheiras dentro das instituições do governo federal, estatais, e empresas do governo:
Governo Lula: o povo conhece, a imprensa divulga, a polícia federal age e prende, a Controladoria Geral da União (CGU) investiga e denuncia livremente, o Congresso investiga e denuncia, CPIs são instaladas e corruptos são cassados; a justiça julga, o dinheiro roubado aparece e "companheiros" são expulsos, presos, demitidos, cassados ou punidos.

retirado de: circula nos e-mais. Não averiguei a consistência dos dados, mas é fácil checar na internet. Em geral, material de campanha do PT costuma oferecer dados bem semelhantes com as respectivas fontes. A campanha do PSDB não tem argumentos e, portanto, não oferece dados concretos.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Dois pesos… O artigo que culminou na demissão de Maria Rita Kehl do Estadão

Por Maria Rita Kehl, para o O Estado de S.Paulo

Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.

Se o povão das chamadas classes D e E – os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil – tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.

Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.

Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da “esmolinha” é político e revela consciência de classe recém-adquirida.

O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de “acumulação primitiva de democracia”.

Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.

Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.

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NR : A direita raivosa não aceita que os mais pobres possam ter um pouquinho mais de dignidade. É muita miséria de pensamento, muita mesquinharia acumulada durante estes anos todos no espírito. Tive a sorte de assistir a uma palestra do Paul Singer e depois, conversando no cafézinho, ele falou com os olhos brilhando da imensa inclusão social que o Bolsa Família proporcionou além de mudar radicalmente a economia de pequenas cidades do interior do Brasil. Daí vem um vampiro… e Vade retro !

retirado de http://betobertagna.com/2010/10/05/dois-pesos…-o-artigo-que-culminou-na-demissao-de-maria-rita-kehl-do-estadao/





quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Do Sonho à Realidade

Muitas das críticas dirigidas nos últimos ao governo federal do PT têm um tom de desilusão em relação ao que foi feito pelo Partido na incumbência do Executivo da União. Cabe aqui uma discussão em duas frentes. Primeiro, se o tom é claramente de desilusão, de rompimento com uma esperança, antes deve haver uma esperança. Significa que, para aqueles que querem uma transformação da sociedade e não concordam com o modo como as coisas estão, o PT representava a possibilidade dessa mudança. E por que o PT deixou de ser, para algumas pessoas, o símbolo de uma transformação possível? Em essência, porque o PT passou a realizá-la. O Partido passou, é verdade, por uma mudança profunda nos últimos anos, mas se atentarmos para as suas principais características, ele continua sendo o representante das classes trabalhadoras no Brasil. Observando o Partido enquanto organização da sociedade civil e não para sua expressão estatal na política eleitoral e nos cargos executivos e legislativos, percebemos que seus principais quadros ainda vêm das camadas trabalhadoras ou pobres da sociedade; que o Partido se liga a entidades reivindicatórias de caráter revolucionário, como as questões LGBT, feministas, campesinas ( MST, apesar dos pesares), trabalhistas (CUT) e outros; que o Partido se faz presente nas lutas políticas em outras esferas que não a do Estado do lado daqueles que são prejudicados pelo status quo, por exemplo, no importantíssimo trabalho que o seu Diretório Zonal do centro de São Paulo faz junto da FLM por moradias no centro da Capital; e em outros tantos momentos. A segunda questão colocada é o porquê do PT ter sofrido essa transformação que teria desiludido a tantos. Não é da pretensão deste artigo fazer uma longa dissertação acadêmica exaustiva e conceitual sobre este assunto, mas existem alguns pontos que podem ser enfatizados; o leitor encontrará alguns textos na bibliografia que o podem fazer de modo mais aprofundado. Uma discussão antiga dos pensadores da política brasileira se refere a problemática da governabilidade. Grosso modo, podemos dizer que governabilidade é a capacidade da máquina governamental, em suas diversas esferas, funcionar sem ser travada por lutas intestinas. Se refletirmos sobre esta grosseira definição, podemos observar que o Estado está, de certa forma, alheio (no sentido de ser estranho a) qualquer um nas suas entranhas, seja nos cargos do Executivo (do Presidente ao Prefeito), nos diversos ramos do Legislativo ou até mesmo na máquina burocrática (os funcionários públicos). Portanto, aqueles que estão no poder são submissos nos seus cargos, por diversos motivos, seja pelas limitações institucionais (a Constituição, por exemplo), seja pelo modo como se chega ao Estado. Na verdade, o que dissemos sobre o Estado em grande medida também é válido para a sociedade. Cada um vê a sociedade como algo distinto de si e não como seu produto, o que é especialmente verdadeiro no campo da economia (é por aqui que vem a definição marxista estrita do conceito de alienação). Vendo por este ângulo, o que o PT teve que fazer para mudar a realidade é adotar um certo pragmatismo para que fosse possível a transformação da realidade. O nascimento deste pragmatismo de esquerda pode em parte ser traçado, no caso brasileiro, até a revisão da posição dogmática do PCB nos anos que antecederam o Golpe de 64 e nos anos posteriores, na revisão da posição militarista adotada por grupos da esquerda nacional influenciados pelo foquismo (MR-8, PCdoB e tantos outros heróis que enfrentaram a Ditadura Militar de armas em mãos). Nesta visão (não estamos utilizando o conceito e sim a palavra apenas), o pragmatismo é uma visão realista da conjuntura e a escolha do melhor ramo de ação dada a realidade, guiada sim por uma profunda inspiração idealista. Ainda sim, não podemos negar que muitas das atitudes do PT deixam a desejar para aqueles que sonham com uma profunda transformação da realidade. É válido perguntarmo-nos como é possível, nesta realidade, realizar um sonho. Não existe uma resposta clara e absoluta, mas através do que expomos e de muito mais, podemos, em parte, responder a esta questão da seguinte maneira: militando e fortalecendo a posição do proletariado (senso-comum) no Estado e na sociedade.Desta maneira, a luta de classes, se entendida como realidade em si, se converte em uma luta em duas frentes: uma difusa, na sociedade (nas campanhas salariais, na luta por terra ou moradia e etc.) e outra concentrada, no Estado (atualmente, nas eleições, principalmente). É especialmente nesta segunda esfera que um Partido como o dos Trabalhadores se faz tão necessário. Pois ele exprime um momento da contradição capitalista no Estado; ele é a expressão das classes desfavorecidas pelo status quo. Por isso e muito mais, termino este artigo com o seguinte apelo: votem nos candidatos do Partido dos Trabalhadores e aliados, principalmente nos do Legislativo (Dep. Estaduais e Federais e os Senadores).


BIBLIOGRAFIA (utilizada ou recomendada):

site da FLM: http://www.portalflm.com.br/
SCHUMPETER, J. 1984. Capitalismo, Socialismo e Democracia. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura
DAHL, R. 1997. Poliarquia: Participação e Oposição. São Paulo: Edusp
NICOLAU, Jairo Marconi, 1999. Sistemas eleitorais: uma introdução. Rio de Janeiro: FGV.
MARX, Karl, 2003. A Questão Judaica. Editora Centauro
ENGELS, Friedrich. "Introdução" in Karl Marx e Friedrich Engels, 1982. A luta de Classes em França. Lisboa: Editora Avante






terça-feira, 10 de agosto de 2010

A universidade pública forte

VLADIMIR SAFATLE

A universidade pública forte


O nosso sistema universitário público merece fazer parte do debate eleitoral


Nestes últimos anos, um dos fenômenos mais dignos de nota foi o fortalecimento da universidade pública graças a um importante ciclo de expansão e interiorização do sistema federal. Tal fenômeno merece estar presente na pauta do debate eleitoral que se inicia.
Em 2002, as universidades públicas federais encontravam-se em situação terminal. O deficit de professores necessários para simplesmente conservar o sistema tal como era nos anos noventa chegava a 7.000. Talvez alguns se lembrem do caso de universidades que precisaram limitar sua atividade noturna por não ter dinheiro para pagar conta de luz.
No lugar das universidades públicas, vimos uma política que incentivava a proliferação de universidades privadas, em larga medida, dissociadas do tripé pesquisa/docência/extensão e cuja qualidade, até hoje, não passou o estágio do duvidoso.
É bem provável que esta experiência tenha mostrado que o sistema privado sai-se muito bem quando é questão de criar centros direcionados à formação para o mercado (como escolas de administração de empresas, publicidade, comunicação, economia, entre outros).
Mas, excetuando as universidades confessionais, os resultados são ruins quando se trata de implementar sistemas universitários complexos capazes de atrair profissionais dispostos a desenvolver habilidades de professor, pesquisador e divulgador de conhecimento.
Alguns criticam o processo recente de ampliação e fortalecimento da universidade pública afirmando que se tratam de universidades caras e de baixa capacidade de absorção das exigências de empregabilidade. No entanto, o sistema universitário público brasileiro é, em larga medida, adequado para os desafios do nosso futuro. Ele garante autonomia de pesquisa ao corpo docente, flexibilidade relativa de escolha de disciplinas para alunos (o que permite particularização da formação), além de abertura para a constituição de estruturas interdisciplinares.
Não precisamos discutir o modelo universitário público, mas aprofundá-lo, permitindo que ele democratize seus modos de gestão, de decisão e que enfim desenvolva todas suas potencialidades e pluralidades.
Por exemplo, vez por outra, aparece alguém afirmando que seria melhor às universidades públicas terem ligação mais profunda com o mercado, um pouco como certas universidades norte-americanas, cuja boa parte de suas linhas de financiamento depende da capacidade em captar recursos da iniciativa privada.
No entanto, seria interessante perguntar a estas pessoas quem então pagará pesquisas que visam mostrar a ineficácia de tratamentos do sofrimento psíquico baseados na medicalização. Certamente, não a indústria farmacêutica. E quem pagará as pesquisas que mostram a participação do empresariado nacional na Operação Bandeirantes e no financiamento do aparato repressivo da ditadura militar? Certamente, não o empresariado nacional. E quem pagará as pesquisas que visam expor os resultados catastróficos da liberação das ações do sistema financeiro em relação à tutela do Estado? Certamente, não os bancos.
Estes são apenas alguns exemplos de limitação do espectro de reflexão da universidade caso um novo modelo se imponha e caso relações de parceria entre mercado e universidade se transformem em confissões de dependência.

VLADIMIR SAFATLE é professor no departamento de filosofia da USP

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Mano Brown

Para os que me criticam por ser academicista demais, deixarei o Mano Brown falar sobre o que quero escrever:

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Dançando

O que é dançar? A primeira vista pode parecer uma pergunta óbvia e longe do que até agora foram os temas que nortearam este blog, mas se analisarmos mais aprofundadamente e com um certo enfoque, perceberemos a importância que esta discussão, aparentemente esteta e trivial, tem para a crítica.

Em primeiro lugar, devemos atentar para o que todas as danças têm em comum. Antes de mais nada, vale algumas ressalvas. Procuraremos abordar aqui as danças tidas como ocidentais ou latinas, o que nos preservará de consultar e ter atenção com etnografias, ao menos no sentido clássico, ou seja, as sociedades "exóticas" ou estrangeiras. Ainda assim, se pensarmos com Geertz e o seu "outro", ainda estamos de certa forma em um domínio da antropologia. Sendo assim, nos prenderemos, em parte devido a razões arbitrárias como o conhecimento por parte do autor, a três danças, entendidas em um contexto cultural da classe média paulistana; são elas o techno, os shows de metal e o forró universitário. Também devemos alertar para o fato de que este artigo é amador e não é baseado em uma pesquisa inédita, o que significa que não está escrito em cima de dados empíricos recolhidos com rigor metodológico nem com ferramentas analítico-interpretativas epistemologicamente refletidas (nem bibliografia tem!). É só um artigo.

Voltando à nossa primeira reflexão, todas as danças que tomamos como objeto deste artigo têm em comum pelo menos dois fatos: são dançadas em grandes grupos de pessoas ao som de música. Se ampliarmos o nosso enfoque objetivo e pensarmos em outras danças "ocidentais-latinas" como a dança de salão, o samba ou o Zouk, esta definição ainda se aplica. Porém, se observarmos a Dança do Ventre, esta definição não será verdadeira. Para superarmos este problema, danças como a Dança do Ventre são performances para um público e não danças no sentido estrito que estamos estipulando aqui. É verdade que todas as danças que serão analisadas têm suas vertentes performáticas, mas analisaremos as danças enquanto danças, ou seja, quando não dançadas visando uma performance, em outras palavras, quando o executante não dança para um público que o entende como um performante.

Passemos agora a uma análise em separado do que as danças-objeto têm em comum. Em primeiro lugar, são dançadas em eventos sociais, ou seja, todas as danças que tomamos por objeto são dançadas em ambientes em que muitas pessoas também estão dançando. Mas, ainda no quesito "coletividade", os nossos objetos têm grandes diferenças. O techno não é dançado em conjunto; dança-se individualmente em meio a muitos outros dançarinos individuais. É verdade que existem certas coreografias realizadas em conjunto, porém na imensa maioria do tempo o techno é dançado sozinho. No forró universitário, não é possível executar nenhuma coreografia sozinho. É preciso um par, necessariamente. Ainda assim, são poucas ou muito raras (podemos tomar como exceções) as coreografias que são executadas em trio ou em mais pessoas (a quadrilha está fora, portanto). Parece estranho entender um show de metal a primeira vista como um evento onde se dança, mas observemos que existe um ato corporal rítmico em um ambiente com música e muitas pessoas que também executam este mesmo ato rítmico. Com relação a coletividade do headbanger, o balançar de cabeças é essencialmente individual. Mas, se prestarmos atenção aos vários gêneros de mosh (existem diversas modalidades, como o stage diving em que se pula em cima de um mar de pessoas ou como o circle pit , onde os participantes se batem de maneira regulada, geralmente com brigas simuladas ou com cotoveladas aleatórias), são necessários outros dançarinos para a execução destas coreografias, muito comuns e até mesmo esperadas em eventos de Rock pesado, o que situaria esta dança-tipo em meio termo em uma escala de coletividade entre o techno e o forró. Mas essa colocação é precipitada. Se analisarmos por outro ângulo, temos no forró casais individuais dançando. Apenas nos shows de rock pesado temos grandes grupos, que muitas vezes incluem todo o evento, em uma única coreografia que é necessariamente executada em conjunto. De forma análoga porém diversa, nos eventos com música eletrônica (pensemos no que muitas pessoas chamam de balada putz-putz) algumas vezes uma única coreografia é executada por um grande grupo que pode incluir boa parte dos participantes do evento. Mas esta coreografia é individual, ela é apenas repetida por vários dançarinos, diferentemente dos grandes circle pit que por vezes cobrem todo um show (aqueles que já foram em show de bandas como Slayer ou Sepultura entendem o que direi) em que todos os participantes são necessários para as brigas simuladas, ou com quem se brigará? Pois os golpes desferidos na maioria dos casos aleatoriamente visam como que acertar a todos. É por isso que eles não miram outro participante em particular, tal como os rodopios do forró, seu homólogo inverso.

Com relação a música, outro traço em comum de todas danças tomadas como objeto, podemos observar que ela é escutada por todos os participantes. Em outras palavras, se entendermos a dança em sua dimensão técnica como atos corporais executadas ritmicamente, o ritmo é dado por uma música. Seria escapar muito do enfoque deste artigo pretender uma análise da música, mas antes de mais nada podemos entendê-la como uma mensagem. Estamos aqui estabelecendo uma grosseira clivagem entre música e canção, também pressupondo que toda canção precisa de uma música. A música é portanto entendida independentemente de qualquer letra que, como canção, possa conter. Podemos dizer, em outras palavras, que a mensagem estipulada acima que a música passa vêm apenas de seus componentes instrumentais. Os conhecimentos musicais do autor não permitem que este seja capaz de uma análise precisa ou conceitual da relação que acredito complexa entre dança e música, mas podemos facilmente observar que esta existe observando qualquer dançarino das danças-objeto. Tomando de certa forma como pressuposto (apesar de acreditar que existam muitos autores que abordem este tema), todos os participantes dos eventos em que se dança as danças-objeto norteiam suas coreografias pela música tocada naqueles. Ou seja, se observamos, todos se pautam por uma mensagem em comum. Ainda na questão da técnica, ignoraremos a dança enquanto uma perícia, em outras palavras, seu conteúdo refletido e "estudado" que se reflete nas elaborações de coreografias, apesar de ser também um tema interessante e bom pra pensar. A relação do ritmo com o ritmo da dança é complexa, mas pensemos nas danças-objeto. O tempo dos movimentos do forró é dado pela música assim como o tempo dos movimentos individuais do dançarino de techno. Quando o espectador de um show de rock bangueia (do inglês balançar, quando balança a cabeça) o ritmo é claramente dado pela música, mas o mesmo não ocorre de maneira tão óbvia durante os moshs. Ainda assim, o momento do mosh, o instante em que ele é realizado, é dado pela música (muitos metaleiros e outros freqüentadores de shows de música pesada argüiriam que os movimentos são executados de acordo com o ritmo da música). Com certeza, as músicas pesadas são pensadas como se fossem um mosh, fato que podemos constatar se percebermos que os moshs costumam ocorrer nos shows daquelas bandas cujas músicas são mais rápidas e, de certa forma, naquelas em que percebemos de certa forma uma textura violenta no ritmo de seus diferentes instrumentos e na relação destes.

E o que podemos concluir de todo o exposto? Se a música é uma mensagem escutada por todos os participantes de um evento social e a dança é pautada em seu ritmo, podemos entender que a dança é uma mensagem em comum repetida várias vezes pelos executantes em uma língua corporal que todos entendem (a técnica da dança, sua perícia). Os dançarinos em um evento social com dança repetem uns para os outros uma mensagem de forma ininterrupta. Com certeza, essa mensagem será texturizada pelas diferentes coreografias, mas o essencial para a compreensão mútua ainda é a mensagem. Não se dança fora do ritmo; é o erro mais primordial que um dançarino pode cometer. A fruição intelectual ( o prazer intelectual do qual Lévi-Strauss fala) da dança reside na tradução de uma mensagem musical, e portanto sonora, em uma linguagem corporal. Mas não é só isso. A dança, como estipulada aqui, é social. Mesmo que a dança seja individual, tal como o techno, ainda sim não se dança sozinho. O coletivo da dança é o ritmo em que todos dançam. O mais importante para que o seu par no forró universitário consiga acompanhá-lo é uma boa compreensão do ritmo e sua posterior tradução em linguagem corporal. De forma análoga, destoa-se da multidão quem não dança no ritmo em uma festa de música eletrônica; sua perícia será desvalorizada. Mesmo que individualmente possa se iniciar um mosh no momento que se quiser em um show de música pesada e que possa desferir os golpes fora do ritmo, o mosh só se tornará realmente amplo quando iniciado no momento certo. Na verdade, e o mais interessante, é que para a violência regulada durante um espetáculo ser um mosh, a música tem que estar tocando; nem se pensa em um mosh fora dessas condições pois são elas que o caracterizam. O vocalista realiza um stage diving durante o solo de guitarra, por motivos técnicos, mas também pois é isso que se espera. A questão não nem tanto o ritmo, mas o que se espera. O ritmo é o esperado na dança de forró, mas além dele existem muitas outras questões que devem ser superadas para o casal dançar. Os dançarinos esperam uma mensagem repetida em comum para se entenderem e isso é dançar. Sem mensagem em comum não há dança. E mais: não é qualquer mensagem, mas uma mensagem determinada. Experimente tocar forró para uma audiência que aguarda um show do Cannibal Corpse. Assim são as sociedades; elas dançam de acordo com uma música; a coreografia dos dançarinos se reproduz enquanto aquela música toca. A relação dos eventos sociais com dança e das sociedades não é bem uma metáfora nesta análise, mas antes uma metonímia, pois tratamos uma parte e, indo para as sociedades, queremos abordar um todo agora. Pois os dançarinos e as pessoas em sociedade são seres humanos em uma coletividade, mas, é claro, de naturezas e formas bem distintas. Ainda assim, existe uma estrutura em comum. As pessoas, que são pessoas pois vivem em sociedade ( a transformação pela cultura, de forma grosseira), vivem de um determinado modo e este modo é comum a elas. Em outras palavras (tentem perceber a metáfora E a metonímia), as pessoas dançam de acordo com uma música. E o mais interessante; quem não vive de um determinado modo não é compreendido, pois está fora do "ritmo" (pensem nos loucos, mas não só neles). Em outro artigo, procurei mostrar que para toda sociedade, entendida no tempo e no espaço, existe um conhecimento tido como legítimo. Este fato é outra expressão do exposto neste artigo. Não podemos tocar a música errada para o público errado. De fato, as sociedades são dinâmicas e as pessoas passam a viver de diferentes maneiras (como sempre nos mostram a história, no tempo, e a antropologia, no espaço), mas se observarmos os dançarinos em um instante, aqueles que dançam de forma diferente destoam; não estão na dança. Este é o destoar das sociedades. Os marginais, os críticos, os "excluídos" estão todos fora do ritmo. O interessante dos eventos com dança é que os dançarinos, ao menos no nosso objeto, não tocam a música, diferentemente das sociedades, em que os próprios dançarinos são os músicos. É dessa forma que juntamos Durkheim, forró, Iron Maiden e Gramsci: perguntado-nos como, dançando e tocando a música de nossa própria dança, podemos fazer todos dançar outro ritmo e sermos compreendidos e aceitos. Eis o trabalho da crítica: falar outra coisa e ainda ser entendida. É bem difícil.